GaleraDoClick no Spotniks

“Tirar fotos é saborear a vida intensamente, a cada centésimo de segundo”. Esta é uma das frases mais conhecidas do renomado fotógrafo francês Marc Riboud e se encaixa como uma luva para definir os objetivos de um projeto inovador e de empoderamento de jovens com Síndrome de Down e outras deficiências.

Idealizado em São Paulo pela fotógrafa Sandra Reis, o projeto Galera do Click ensina a teoria e a prática do mundo da fotografia aos jovens que, muitas vezes, não possuem as mesmas oportunidades em razão de suas deficiências. Em entrevista à Sputnik Brasil, Sandra revelou que a inspiração para o projeto começou em casa.

“Na verdade a ideia toda, a inspiração partiu do meu filho Felipe, que tem 24 anos e tem Síndrome de Down também. Eu coloquei uma câmera na mão do Felipe e o levava para fotografar comigo”, relembrou a fotógrafa.

A iniciativa não passou desapercebida de outras mães e o que começou como uma reunião de amigos, para uma série de fotografias para um calendário, começou a ganhar corpo e forma. O interesse fez com que um encontro deu origem a outros encontros e famílias antes unidas pela deficiência de seus entes queridos passaram a se unir também pelo prazer de fotografar.

“Além do curso de fotografia, a Galera do Click abriu espaço para a amizade. É uma tribo, eles se reuniram. A gente procura sempre e se identifica com os amigos, com quem a gente tem alguma coisa em comum. No caso da Galera do Click eu acho que o projeto deu certo por conta disso: são famílias que se encontraram com um mesmo objetivo, e aí eu falo que eu acreditei no potencial deles”.

Singularidade

“É através da vida que nos descobrimos, ao mesmo tempo em que descobrimos o mundo ao nosso redor”, costumava dizer a lenda do fotojornalismo, o francês Henri Cartier-Bresson. Nada mais próximo da realidade, e isso transparece nos trabalhos que Sandra conduz com os seus alunos da Galera do Click. Aliás, ela revela que eles possuem algumas qualidades únicas.

“Acho que eles têm uma sensibilidade muito aguçada. Tudo deles é exacerbado. Eles enxergam coisas que a gente, de repente, não consegue ver. É um outro prisma”, comentou a fotógrafa, que garante que o curso é profissional como aquele dado para qualquer outra pessoa sem deficiência. A mensagem por trás da teoria e da prática também é a mesma.

“Procuro fazer com que eles tenham prazer em captar as imagens, por isso que a gente sai muito, passeia bastante, para eles se divertirem captando imagens, e para depois aqui no estúdio a gente ir introduzindo a teoria […] Quero empoderar esses meninos, eu quero dar a certeza que esses meninos estão aprendendo”.

Do empoderamento e da profissionalização provém uma consequência natural: a inclusão social. De acordo com Sandra, os alunos lhe dizem que se sentem “poderosos com uma câmera na mão” e que há um desejo de trabalhar profissionalmente na área. Como mãe e professora, é uma das realizações que ela pretende alcançar com o projeto.

“Quero é que amanhã as pessoas contratem os meninos para fotografar uma festa de aniversário, um evento corporativo. A intenção é essa e isso é inclusão: é você acreditar que eles são capazes. Acreditar que você pode contratar um fotógrafo com deficiência intelectual”, explicou.

Próximos passos

“A câmera é um instrumento que ensina as pessoas a ver sem uma câmera”, ensinava a fotógrafa norte-americana Dorothea Lange. De fato, o projeto Galera do Click espera estar construindo outro entendimento importante e que ataca de frente a realidade enfrentada por esses jovens fotógrafos: o preconceito.

“Eu falo que o preconceito é só a falta de informação. Depois que você conhece qualquer pessoa com qualquer deficiência e convive com ele, não existe mais preconceito”, afirmou Sandra.

Por sinal, o conhecimento fez com que a Galera do Click tenha outros objetivos além de fotografar. Figura inspiradora do projeto, o filho de Sandra é também o primeiro judoca faixa preta do Estado de São Paulo. Não por acaso, os colegas também passaram a aprenciar os tatames, como contou a idealizadora.

“Eu falo que isso tudo anda junto. Além da fotografia, os meninos todos aqui agora querem fazer judô por causa do Felipe. Ele é seguro com o que ele sabe fazer, ele se sente valorizado, capaz, então eu acho que [vale] para qualquer pessoa, mas [ainda mais] para eles que já nascem com uma desvantagem por conta da deficiência”, afirmou.

Um dos próximos passos desejados é levar o projeto Galera do Click para outros estados do Brasil, por meio de palestras e cursos de formação, para que outros profissionais da fotografia abracem a ideia de abrir o mundo fantástico da fotografia para jovens com deficiência de outras localidades brasileiras.

“Você criar possibilidade para que o ele [jovem com deficiência] cada vez mais se iguale a uma pessoa que não tem deficiência, eu acho que é isso que a fotografia faz. Ou qualquer outro curso. A partir do momento que ele está empoderado, que ele é capaz de fazer, vai diminuindo a distância entre os com e os sem deficiência”.

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